Após a lama, tribo Krenak deixou de fazer rituais e festas no Rio Doce
Para o povo Krenak que vive em Resplendor, Minas Gerais, o Rio Doce é muito mais do que água e peixes. Até antes do rompimento da barragem da Samarco em Mariana, em novembro do ano passado, era nas margens do rio que eles realizavam seus rituais e festas, batizavam as crianças e tiravam ervas para remédios e material para o artesanato. Depois de ter sido manchado pela lama, eles consideram que o Doce morreu.
“Agora o rio acabou, e a gente tem que fazer nossa cultura nas cabanas, debaixo das árvores. Uma coisa importante que nós perdemos, não tem mais volta, não tem mesmo. Acabou tudo”, diz Dejanira Krenak, que velou o Doce quando a lama passou pela terra dos indígenas, que tem o rio até no nome. Eles são conhecidos também como Borun do Watu. Watu é Rio Doce, na língua krenak.
Dejanira afirma que, para seu povo, a água do rio é sagrada e tem poder de purificação. Nele eram realizados rituais para chamar a chuva, além de ser onde ensinavam as crianças da tribo a nadar e levar uma canoa. “A gente ia lá na beira do rio, dormia lá, acendia nossa fogueira lá, agora a gente não pode mais. A vida toda que a gente tinha na beira do rio acabou.”
Da janela de casa, o cacique da tribo, Rondon Krenak, viu o Rio Doce convalescendo e os peixes morrendo quando o mar de lama chegou. Segundo ele, a água demorou seis meses para voltar a correr no leito do rio como antes da tragédia ambiental. Mas nas pedras da margem, a lama seca que está impregnada ainda é dos resíduos de mineração, afirma. “É difícil a gente frequentar mais essa beira de rio por causa desse tipo de produto que está nas pedras.”
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