Delação-bomba de Delcídio: um guia de leitura

Em dezembro do ano passado, quando Delcídio do Amaral, então preso, anunciou a contratação do advogado do doleiro Alberto Youssef para sua defesa, escrevi neste blog um texto com o título: Delcídio (o mais novo) homem bomba da República. Agora a bomba explodiu. É uma bomba de fragmentação, daquelas que espalham estilhaços por todos os lados. Seus estragos podem ser lidos por qualquer um online, em 254 páginas agora homologadas pelo STF.

No imediato, é claro, a delação complica ainda mais a vida de Lula, a quem Delcídio acusa de ser o mandante de envio de dinheiro, via a família de Bumlai, para a família de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, para que esse não fizesse a delação premiada, o que acabou acontecendo de qualquer maneira. Acusa a Dilma de tentar influir na soltura de réus na Lava Jato via a nomeação de magistrados para tribunais superiores. E por aí vai.

São 29 anexos (veja o índice na página 29 da delação). Delcídio – ou o colaborador – cita meia República. Com mais ou menos gravidade estão lá Lula, Dilma, Temer, Aécio, Aloizio Mercadante, Eduardo Cunha, José Eduardo Cardoso, empreiteiros, banqueiros, planos de saúde, assessorias de comunicação, ex-presidentes da Petrobras desde 1992, Palloci, Malan, José Dirceu e até  ACM, o falecido ex-governador da Bahia.

Parte do dito por Delcídio foi publicado pela revista Isto É em edição antecipada no dia 3 de março (normalmente a revista sai às sextas mas naquela semana saiu na quinta, sem maiores satisfações a seus leitores). Na edição da revista, porém, dois nomes ficaram de fora: Aécio e Temer, que agora aparecem em diferentes anexos, no 5 e 16. Um diz respeito a Furnas e outro à compra de etanol pela BR Distribuidora.

Os acusados negam. E de fato: a delação é ou deveria ser, a parte inicial de um processo de investigação. À fala do acusador será necessário acrescentar provas e indícios. Que uma delação como essa tenha vindo a público – atingindo, e por que não?, pessoas inocentes – antes de uma investigação aprofundada é um sinal dos tempos em que vivemos, nos quais, de fato, se condena de imediato via a execração pública.

Seja como for, a bomba-Delcídio, digamos assim, explodiu duas vezes: uma na publicação da Isto É e agora, com a homologação no STF e ampla difusão online.

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