Mais de 100 organizações em todo o mundo expressam sua profunda preocupação com o apoio do Banco Mundial para a privatização na educação

Hoje, mais de uma centena de organizações nacionais e internacionais em todo o mundo divulgaram uma declaração conjunta dirigida ao presidente do Banco Mundial, Jim Kim, expressando grande preocupação sobre a declaração de apoio do organismo ao desenvolvimento de uma cadeia multinacional de escolas primárias privadas de baixo custo, com fins lucrativos, dirigidas a famílias pobres no Quênia e Uganda – a Bridge International Academies (BIA). O documento é resposta a um recente discurso do presidente do Banco Mundial, Jim Kim, que elogiou o sistema BIA como um meio para atenuar a pobreza.

São signatários da declaração comunidades de base, organizações nacionais e internacionais, redes e sindicatos que representam milhares de organizações e milhões de pessoas nos cinco continentes. O documento reflete um movimento global crescente questionando políticas de apoio ao ensino privado nos países em desenvolvimento, incluindo as inciativas do Banco Mundial. A declaração foi escrita e assinada por 30 organizações de Uganda e do Quênia, principais países afetados pela política do Banco Mundial, e recebeu o apoio de 116 organizações ao redor do mundo.

O grupo BIA usa métodos de ensino altamente padronizados, professores mal remunerados e sem formação, e estratégias de marketing agressivas para atingir as famílias pobres, usando como alicerce para a venda de seus serviços a aspiração dessas famílias por uma vida melhor.

O Banco Mundial já investiu 10 milhões de dólares no BIA, e, por outro lado, não tem investimentos ativos ou previstos em qualquer dos sistemas de educação básica públicos em Uganda ou no Quênia.

Em discurso feito no começo de abril, Jim Kim afirmou que nas escolas do sistema Bridge International Academies "a pontuação média de leitura e matemática está acima das médias apresentadas por escolas públicas”. No entanto, a fonte dos dados citados por Jim Kim não foi divulgada pelo Banco Mundial, mas as informações parecem ter sido retiradas de um estudo realizado pela própria BIA.

Custos
O presidente do Banco Mundial afirmou ainda que "o custo por estudante nas escolas da rede Bridge Academies é de apenas USD 6,00 dólares por mês". A ideia de que USD 6,00 é uma quantia aceitável de mensalidade para famílias pobres revela uma profunda falta de compreensão da realidade vivida pela população de baixa renda. Organizações quenianas e ugandenses calcularam que, para metade da população no Quênia e em Uganda, gastar USD 6,00 por mês por criança para enviar três crianças em idade escolar primária para a Bridge Academies equivale a, pelo menos, um quarto de renda familiar mensal – e que essas famílias já estão fazendo muito esforço para serem capazes de prover três refeições por dia a seus filhos.

Além disso, o custo total para enviar uma criança para uma escola Bridge Academies pode é, de fato, entre USD 9,00 e USD 13,00 por mês, podendo chegar a USD 20,00 se incluirmos no cálculo a merenda escolar. Com base nesses números, enviar três filhos para BIA representaria 68% (no Quênia) e 75% (em Uganda) da renda mensal da metade da população nesses países.

Salima Namusobya, Diretor da Initiative for Socio-Economic Rights, organização ugandesa que também assinou a declaração, afirma “se o Banco Mundial for genuíno no cumprimento de sua missão em garantir a cada criança a oportunidade de ter uma educação primária de alta qualidade, independentemente da renda de sua família, deveriam fazer campanha por um sistema gratuito em contextos como o de Uganda”. 

Mobilização internacional
O discurso de Jim Kim veio pouco depois de membros da sociedade civil de diversos países, incluindo Uganda, terem se reunido com funcionários do alto escalão da área de educação do Banco Mundial para discutir especificamente o apoio dado pelo organismo à escolas que cobram mensalidade, escolas primárias privadas e o financiamento para BIA, em particular.


Também vem em um momento em que observamos um aumento sem precedentes no financiamento do ensino privado em todo o mundo, especialmente na África, que muitas vezes conta com o apoio de investidores estrangeiros. Estes investimentos têm atraído igualmente crescentes críticas, incluindo em um relatório recente que destaca como o governo do Reino Unido, através do seu Departamento de Desenvolvimento Internacional (DfID), apoia a privatização dos serviços de educação e saúde em diversos países no mundo. O DfID é também um dos investidores da Bridge International Academies.


A declaração pede ao Banco Mundial que pare de promover e cesse o investimento na Bridge International Academies e outra escolas que cobrem taxas e mensalidades e em outros grupos privados de educação e que passem a apoiar uma educação pública, gratuita e de qualidade, como previsto na legislação do Quênia e de Uganda, assim como é uma exigência legal em muitos outros países do mundo.




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