Dilma está errado porque não tem como acertar
Política é encenação. Para usar um termo não-moralista: é construção de narrativa. Por que Lula pode fazer ajustes “de direita” na economia, quando assumiu o primeiro governo, no início de 2003? Porque meramente sua vitória já era uma entrega simbólica enorme. Na verdade ele tinha a “licença para governar” à direita que o próprio PSDB não teria. Tomaria porrada dos movimentos, sindicatos etc.
Desse ponto de vista, a vitória de Lula (e seu pragmatismo econômico) foi uma sorte para o país. Por outro lado, assim que teve uns trunfozinhos econômicos na mão, Lula os reinvestiu em políticas de inclusão. Esse timing, combinado com alguma sorte no cenário internacional, foi cacife suficiente para Lula contornar contra-narrativas cruéis – como a exposição do mensalão –, e ser reeleito.
Não é que as pessoas não enxergassem os defeitos de Lula e de seu governo. É que no pacote, tal como era percebido, o país como um todo (e não sua elite excludente) parecia levar vantagem. Claro que a elite preservava e até ampliava algumas vantagens, como o setor bancário por exemplo, que bateu seguidamente recordes de lucro. Assim, calibrando a narrativa, Lula seguiu agradando à direita e à esquerda.
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