Os trolls brasileiros são diferentes, e Zuckerberg agora sabe disso
Depois de poucos dias em que seus posts no Facebook foram inundados por dezenas de milhares mensagens, Mark Zuckerberg decidiu fechar a sua página para comentários. Não é difícil entender o motivo. Basta olhar, por exemplo, a notícia de seu casamento, de 2012, que desde sexta-feira ganhou 100 mil novos comentários – a esmagadora maioria de brasileiros postando imagens comemorando a tal da “zoeira/zuêra” brasileira, com bandeiras e memes clássicos. O fato de o fundador da rede que mais privilegia transparência e interações ter fechado a sua página para comentários diz muito sobre quem provocou isso. Os brasileiros são trolls diferenciados.
O ocorrido chamou a atenção de parte da mídia que cobre tecnologia nos EUA, como o Techcrunch. Ali nos comentários, o mesmo fenômeno da página do Facebook se repetiu, com brasileiros em geral se autocongratulando sobre a capacidade de zoar. Em todo lugar houve certa estranheza com o aspecto bizarro e sem propósito do evento. Alguns levantaran a possibilidade de o “protesto” ser uma forma de chamar a atenção do Facebook para a falta de alcance orgânico das páginas, mas não há qualquer indício disso. O que aconteceu ali foi a chamada zoeira pela zoeira. Um comportamento favorito dos nossos trolls – razoavelmente inofensivo quando isolado, mas bem irritante quando bem coordenado, como este em que o alvo foi Zuckerberg.
Parênteses histórico: Quando falamos de trolls, a imagem que vem à mente é daquele monstrinho (que já foi simpático), mas muita gente acredita que a origem do termo em inglês vem do verbo to troll, que é algo como puxar o anzol fisgado da vara de pescar. Ou, numa interpretação livre, trollar é fazer algo especificamente para chamar a atenção (normalmente irritar).
Trolls existem em qualquer lugar do mundo. E sempre existiram. Só que antes o alcance da zoeira e capacidade de organização eram limitadíssimos. Trollar até os anos 90 era ir para a casa do primo e passar um trote para uma pessoa aleatória, ou apertar a campainha e sair correndo. Tomava tempo, rendia risadas para adolescentes sem mais o que fazer, mas era algo normalmente pouco ofensivo, que alguém fazia no início da adolescência.
A trollada para cima de Mark Zuckerbeger é bem coisa de adolescente, é claro. Basta ver o tanto de nomes das escolas ao lado de vários comentários. Mas ela também é peculiar de jovens brasileiros por duas razões. A primeira é que é um pouco contrária à noção histórica na academia de que o comportamento troll é ligado ao anonimato (tanto offline quanto online). Quando pensamos em trolls, os piores que vêm à cabeça são os que se escondem por detrás de personagens e têm nomes engraçadinhos. Mas no caso dos comentários com Zuckerberg, havia a identidade real de um monte de gente lá. O brasileiro parece não ter muita vergonha do que faz online, e não mede as consequências (cada vez mais reais) das besteiras que postam na rede, ao contrário de trolls alhures.
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