Com fim da compra de ativos, atenção do Fed se volta para os juros



O Federal Reserve confirmou ontem que vai encerrar, no fim de outubro, o seu longo programa de compra de títulos de dívida, pondo fim a um experimento histórico que gerou controvérsias no mercado sobres seus efeitos, ainda que o banco central americano afirme que tenha atingido seu objetivo principal de reduzir o desemprego.

Ao mesmo tempo, o Fed atualizou sua avaliação do desempenho do mercado de trabalho e ressaltou alguns riscos de curto prazo de queda na inflação.

O banco central segue garantindo que os juros de curto prazo permanecerão perto de zero por um “tempo considerável”.

Juntas, as medidas assinalam um voto de confiança do Fed na economia americana, que parece ter crescido a uma taxa de 3% ou mais no terceiro trimestre. É um desempenho bem melhor que o do Japão e da Europa e um alento para a economia mundial, num momento em que o crescimento da China dá sinais de fraqueza.

Ao apontar para “ganhos sólidos” de postos de trabalho e a queda da taxa de desemprego, o Fed afirmou que um leque de indicadores do mercado de trabalho sugere que a capacidade ociosa está “diminuindo gradualmente”. No processo, a instituição removeu do comunicado uma avaliação anterior que dizia que a capacidade ociosa no mercado de trabalho era considerável, uma frase que os investidores vinham observando de perto em busca de sinais de que o Fed está mais confiante na economia.

“O Comitê concluiu que houve melhora substancial no cenário do mercado de trabalho desde a criação do atual programa de compra de ativos”, afirmou o Fed. “Além disso, o comitê continua a ver força suficiente na base da economia para sustentar o progresso contínuo em direção ao emprego pleno, num contexto de estabilidade de preços.”


Se tudo acontecer como planejado, o Fed se dedicará, nos próximos meses, a discussões sobre quando iniciar o aumento dos juros de curto prazo e como sinalizar esses movimentos para o público antes que eles ocorram. Muitos esperam uma alta dos juros em meados de 2015. As autoridades do Fed continuam dizendo que as taxas se manterão próximas de zero por um “tempo considerável”, uma forte indicação de que não mudaram de ideia quanto ao momento de elevar os juros.

Ainda assim, muita coisa pode dar errada e forçar o Fed a abortar o plano. Antes, o Fed chegou a declarar duas vezes que iria encerrar o programa de compra de títulos, só para ter que reiniciá-lo quando o crescimento, o emprego e a inflação pareceram piorar.

A garantia do Fed quanto aos juros incluiu um novo qualificador: Se o mercado de trabalho melhorar mais rapidamente que o esperado ou a inflação subir, a alta dos juros pode acontecer mais cedo ou vice-versa.

O Fed apontou novos riscos no que diz respeito à inflação, observando que as expectativas de inflação diminuíram no mercado de títulos de proteção contra a alta nos preços ao consumidor, conhecidos como Treasury Inflation-Protected Securities. O Fed também destacou a queda dos preços dos combustíveis, mas afirmou que não espera que a pressão para baixo sobre a inflação dure.

O banco central iniciou a mais recente rodada de compra de títulos em setembro de 2012, quando informou que compraria US$ 40 bilhões por mês em títulos hipotecários até verificar uma melhora substancial no mercado de trabalho. Ele expandiu as compras para US$ 85 bilhões por mês de títulos do Tesouro em dezembro de 2012 e gradualmente começou a reduzir o programa a partir de janeiro deste ano.

O legado do programa de compra de títulos provavelmente será objeto de um acalorado debate em Wall Street, nas universidades e nos bancos centrais por décadas. Críticos do Fed argumentaram por anos que a estratégia pode elevar a inflação, desvalorizar o dólar e distorcer o mercado. As autoridades do Fed esperavam acabar com os juros e empurrar os investidores para ativos com maior risco e, como consequência, impulsionar os empréstimos, gastos, investimentos, crescimento e contratações.

Os piores temores com relação à compra de títulos — o chamado “quantitative easing”, ou “afrouxamento quantitativo”, como é frequentemente chamado — claramente não se concretizaram. Por exemplo, a inflação medida pelo índice de preços de gastos com consumo pessoal do Departamento do Comércio está inalterada em 1,5% desde setembro de 2012. Entretanto, o dólar medido pelo índice cambial mais amplo do Fed se valorizou 6,7% em comparação a outras moedas do mundo.

Ainda assim, as demonstrações de seus benefícios são vagas. Embora a taxa de desemprego tenha caído de 8,1% antes do programa para 5,9% em setembro, isso foi em parte devido às pessoas deixarem a força de trabalho e as fileiras das que são contabilizadas como desempregadas. O crescimento do emprego foi de 2,2 milhões nos 12 meses antes de o Fed lançar a nova rodada de compra de títulos em setembro de 2012 e de 2,6 milhões nos últimos 12 meses, mas é difícil provar que o crescimento mais rápido veio dos esforços do Fed e não de outros fatores.

O Fed afirmou que continuaria por enquanto com sua prática de usar a arrecadação com os títulos que venceram para comprar outros títulos para manter sua carteira do mesmo tamanho — ela agora ultrapassa US$ 4 trilhões.

James Bullard, presidente da regional do Fed de St. Louis, disse antes da reunião que o Fed deveria considerar a continuidade do programa porque as expectativas de inflação têm sido frustradas. Mas várias outras autoridades do Fed sugeriram nas últimas semanas que considerariam retomar o programa apenas se a economia fraquejar consideravelmente.

O presidente da regional do Fed de Minneapolis, Narayana Kocherlakota, discordou. Ele queria que o Fed continuasse a comprar títulos e que se comprometesse de forma mais assertiva que manteria os juros baixos.

Fonte: The Wall Street Journal


Tecnologia do Blogger.