Uma obra prima da música brasileira faz 40 anos
Era 1974. Eu tinha 14 anos de idade e já amava o rock and roll com todas as minhas forças, fosse ele internacional ou brasileiro. Época de cabelos compridos, calça boca-de-sino, bailinhos nas garagens de nossas casas - sempre com as indefectíveis lonas contra chuvas e olhares bisbilhoteiros -, os ouvidos se abrindo para o jazz rock, que passaria a ser rotulado como “fusion” na década seguinte… Tudo dentro do figurino daquilo que era chamado de “roqueiro” naqueles tempos.
Foi então que minha amada mãezinha, a saudosa Dona Irene, apareceu um belo dia em casa com dois discos de… samba. Fiquei duplamente surpreso. Primeiro, porque nunca imaginaria que minha mãe gostasse do gênero; depois, porque aqueles discos tinham capas desenhadas, e não com simples fotografias, como era o padrão da época.
Já mostrando os primeiros sinais da contaminação pela curiosidade em ouvir novos sons, que tomaria conta do meu espírito nos anos seguintes, a ponto de ser tornar incontrolável até os dias de hoje, resolvi prestar atenção quando mamãe colocou os discos para rodar em nossa vitrola.
O primeiro foi Pra Que Tristeza, dos Originais do Samba, cujo líder, um tal de Mussum, anos mais tarde integraria os lendários Trapalhões, comandados por Renato Aragão. Prometo na semana que vem escrever a respeito deste álbum.
Hoje quero me concentrar e contar a você sobre o segundo disco que mamãe comprou: Canta Canta, Minha Gente, de um sujeito chamado Martinho da Vila.
A capa dupla, algo raríssimo para um álbum de música brasileira, já era um “desbunde”: um belíssimo desenho de Elifas Andreato, mostrando Martinho com um sorriso típico de malandro, cheio de malícia e ironia. Na parte de dentro e na contracapa, mãos. Várias delas. Todas levantadas, como se seguissem a orientação dada no título do disco. Fazia todo o sentido para mim, que adorava as artes das capas de bandas de rock progressivo. Isto aguçou ainda mais a minha curiosidade. Até hoje tenho certeza de que isto foi um “golpe” de Martinho e Elifas para capturar a atenção de jovens roqueiros como eu. Se isto for verdade, deu certo.
Então minha mãezinha botou o disco para rodar…
Assim que começou a tocar a primeira faixa, que dava título ao disco, alguma coisa deu uma ligada extra em uma região do meu cérebro que nunca tinha dado bola para o samba até então. O violão sozinho – tocado pela lendária Rosinha de Valença - já dando o ritmo da canção ao lado de um agogô de madeira, Martinho cantando o refrão logo de cara, os instrumentos de percussão entrando um a um, como se estivessem sendo colocados em camadas, como mamãe fazia na hora de preparar um bolo… Quando a canção chegou ao fim, me peguei batucando na mesa da cozinha. Epa! O que teria acontecido comigo, um roqueiro firme e resoluto?
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